a substituição
vivem juntas
uma é quase igual a outra
mas não são gêmeas
uma é a dama de companhia
a dama de companhia
é ligeiramente mais
alta loira branca longilínea
do que a dama
esta ligeira diferença
na semelhança evidente
é a causadora do Mal
o Mal manifesta-se
pela substituição
A dama de companhia
sente na carne
que se fosse a dama
estimava mais e melhor
a orquídea
portanto substitui a orquídea
por uma igual
mas de plástico
é uma questão de direito natural
a dama de companhia
dedica-se à substituição
sistemática
o alfinete de ouro e diamante
é substituido
por outro igual
mas de pechisbeque
paulatinamente
a dama de companhia
chega
a substituição capital
no lugar do frasco de sedativo
põe o frasco de tinta de chapéus
e no lugar do frasco de tinta de chapéus
põe o frasco de sedativo
a dama morre (os chapéus ficam mais calmos)
eram inseparáveis
ninguém suspeita
que o ódio insepare as pessoas
mas insepara
a dama deixou tudo em testamento
à dama de companhia
a dama de companhia
venera a morta
à sua manera
que é ocupando
o lugar da dama
como se o lugar da dama
tivesse sido feito para ela
por medida
veste as roupas da dama
mesmo quando estas passam de moda
e contrata uma dama de companhia
ligeiramente mais
alta loira branca longilínea
do que ela
e tudo se repete ad infinitum
(até uma mulher muito má e loiríssima)
a. lopes em o decote da dama de espadas.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Herberto Helder In «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
sábado, 31 de maio de 2008
galinha do jesuíta kircher
saiu-se bem, possivelmente desfascinada
trata de caminhar e falar com todos
não sem dor
segunda-feira, 19 de maio de 2008
quinta-feira, 10 de abril de 2008
quinta-feira, 3 de abril de 2008
quarta-feira, 2 de abril de 2008
EMILY DICKINSON
Mesmo que pudesse
dizer tudo
não podia dizer tudo
e é bom assim
S. JOÃO DA CRUZ
Mesmo que pudesse
dizer tudo
não podia dizer tudo
e é bom assim
ADÍLIA LOPES
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
1/1
viveu um tempo
em portugal
poderia
ser muito feliz
se não fosse
o correio
/
era maria cristina
ou seria maria cristina
já não importa
//
tão já não consegue
pensar na vida
e viver ao mesmo tempo
///
as coisas então partidas estão perdidas
//
//
guilherme continua a escrever
suas cartas de amor
para si
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
sabe, o rio de janeiro, meu bem, não é isso tudo não. nem bundas
alguns prédios velhos que sorriam, um gosto de esquecimento, de se perder de vista, de que ninguém te vê.
sabe, meu bem, eu tomei um chopp. e fumei cigarro, mentolado porque só desses que tinha avulso e então eu tive certeza dos quatorze anos fumando um cigarro em frente ao cinema. abri o livrinho perto dos caras de mochila que só falam em película, cabelos nos olhos como em todos os lugares que freqüento. we are idiots, babe. pensei em você. estou comigo, só. ando como se fosse outra
os postais ficaram, um sol gigante me cobre completamente em qualquer espaço. vou indo, assim mesmo
devagar pra não pegar o trem. me espere.